Manual de Jornalismo de Dados 1.0
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Basômetro: Passando o poder da narrativa para o usuário

O Basômetro foi a primeira ferramenta criada pelo Estadão Dados, que, por sua vez, foi o primeiro núcleo de jornalismo de dados das redações brasileiras. Não é um infográfico, não é um banco de dados, não é uma tabela, mas é tudo isso ao mesmo tempo.

O propósito do Basômetro é medir, partidária e individualmente, o grau de apoio de deputados e senadores ao governo federal no Congresso Nacional a qualquer tempo. Por que o governo como base de medida? Porque é assim que funcionam a Câmara e o Senado no Brasil: aprovando ou rejeitando proposições do Executivo.

O outro motivo é que o apoio ao governo é condicional, melífluo, temporário, pendular. Nenhum voto é líquido e certo. A "base governista" é um vício de linguagem. Apoio vira oposição de uma votação para outra, e vice-versa. Tudo depende de negociação, de agrados, de liberações de verbas, de concessões de cargos.

Daí a importância de medir essas oscilações e saber quem e quantos estão onde no espectro político a cada instante. O Basômetro é o termômetro do presidencialismo de coalizão que governa o Brasil desde a redemocratização. É uma interface simples para analisar um sistema complexo e volumoso.

Estão computados no Basômetro centenas de milhares de votos nominais (nos quais os parlamentares se identificam) dados na apreciação de matérias em que o governo tenha encaminhado a votação contra ou a favor - sejam projetos de lei, emendas constitucionais, medidas provisórias, destaques de votação, ou simples requerimentos de inversão de pauta.

Não são consideradas no Basômetro votações simbólicas, secretas ou nominais nas quais o líder do governo não tenha orientado sua bancada para votar a favor ou contra - seja porque é impossível saber como votou cada parlamentar, seja porque o governo não tinha um interesse manifesto no resultado.

O Basômetro registra se o deputado ou senador votou a favor, contra, se absteve ou não votou. A sua taxa de governismo é obtida pela divisão do número de votos a favor do governo pelo total de votos dados pelo parlamentar (incluídas as abstenções).

Assim, um deputado que tenha votado 62 vezes junto com o líder do governo, que por 9 vezes tenha votado contra e que por 2 vezes tenha se abstido de votar terá uma taxa de governismo de 85%. Não importa que o deputado seja, como é, do DEM (partido de oposição) nem que ele tenha faltado a 112 votações. Conta apenas e exclusivamente o que ele fez transparentemente em plenário.

A taxa de governismo das bancadas partidárias é obtida pela média das taxas de todos os parlamentares do partido que tenham participado de alguma votação computada pelo Basômetro. Todos entram nesse cálculo, inclusive os que por uma razão ou outra não exerçam mais o mandato. Busca-se assim medir o comportamento histórico da bancada, não apenas o instantâneo.

O Basômetro foi concebido para permitir ao usuário fazer recortes temporais, partidários ou geográficos simplesmente deslizando seus marcadores ou acionando seus filtros.

É possível comparar, por exemplo, o tamanho da base governista na Câmara dos Deputados durante o primeiro ano do governo Dilma Rousseff (79% de apoio médio) com o da primeira metade do terceiro ano (71%). Ou, mais especificamente, o grau de fidelidade do PMDB: nesse período, caiu de 93% para 73%.

Além dos "sliders" de tempo localizados no eixo horizontal da interface, outro "slider" colocado no eixo vertical permite contar, automaticamente, quantos deputados ou senadores votaram com que frequência junto com o governo.

Se o usuário pesquisar o tamanho do "núcleo duro" da base de Dilma na Câmara, por exemplo, descobrirá que ele foi reduzido a um terço entre 2011 e o primeiro semestre de 2013. No começo do governo, nada menos do que 306 deputados votavam pelo menos 90% das vezes junto com o governo. Entre janeiro e junho de 2013 esse número havia sido reduzido a 103 (e 79 deles são do PT).

Imagem 1. Basômetro mostra a redução do "núcleo duro" do governo

Trata-se de uma medida objetiva do grau de apoio que o governo de ocasião dispõe a cada momento no Congresso. Ao contrário da cobertura jornalística tradicional, passa longe do discurso político, dos bastidores, das negociações, do mise-en-scène. É mais preciso, é mais conciso, é menos dependente das fontes de informação humanas e, por consequência, menos manipulável.

É também uma revolução na narrativa jornalística. Em vez de o jornalista contar para o leitor/espectador/ouvinte o que aconteceu, o Basômetro transfere ao usuário o poder de narrar a história para si próprio. O jornalista perdeu a exclusividade de descrever o que se passou. Qualquer um pode fazer isso - sem intermediários, preferências ou preconceitos que não os seus.

Como em toda boa ferramenta, o uso do Basômetro é permanente - ao menos enquanto houver Congresso Nacional e/ou meios de o Estadão Dados alimentá-lo. A base cresce a cada votação no Senado e na Câmara. Pode incorporar votações de governos passados (inclui os dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva), futuros e novas dimensões. Isso provoca problemas, porém.

O código do Basômetro transfere a maior parte das operações para o navegador do usuário. Isso torna as transições e cálculos mais rápidos, mas aumenta o tempo de espera para o carregamento das bases de votações quando o usuário acessa a ferramenta pela primeira vez. A cada novo governo, maior o tamanho dessa base a ser transferida, o que acaba sendo uma limitação.

Em outra inovação nas redações jornalísticas, o código do Basômetro está disponível no Github com licença livre. Qualquer um pode fazer o download e construir um basômetro para a Assembleia Legislativa de seu Estado ou para a Câmara Municipal de sua cidade. Sem pagar nada pelos direitos autorais. Basta citar a fonte.

O Basômetro só existe porque é um trabalho coletivo. Ele reúne habilidades de profissionais com distintas formações: jornalistas, engenheiros/desenvolvedores e designers. Também não teria sido possível se vários níveis de chefias no Estadão não tivessem comprado a ideia do projeto e destinado os recursos humanos e materiais necessários à sua realização.

Para além do seu uso cotidiano na redação pelos jornalistas que acompanham política, a aceitação do Basômetro surpreendeu seus criadores. Quem temíamos que abominasse a novidade - a academia - adorou. E quem imaginávamos que usaria a ferramenta com estrondo - os políticos - se calou.

Logo após seu lançamento, a ferramenta inspirou uma série de artigos escritos por professores universitários e pesquisadores, todos eles publicados no portal estadao.com.br. A editora da Fundação Getúlio Vargas se propôs a editar um livro com versões ampliadas e atualizadas desses artigos. Uma ferramenta eminentemente digital, o Basômetro acabou no papel.

José Roberto de Toledo, coordenador do Estadão Dados