Manual de Jornalismo de Dados 1.0
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InfoAmazônia: o diálogo entre jornalismo e dados geográficos

Imagem 2. Mapa do desmatamento mostrando o desmatamento na selva do Peru causado pelo avanço da indústria de óleo de palma (InfoAmazônia)

Em 2008, a necessidade de reportar sobre a alta incidência de incêndios florestais dentro de parques e reservas no Brasil me colocou em contato com as novas tecnologias de mapeamento digital. Naquela ocasião, a simples descoberta de que era possível incluir dados próprios em ferramentas do Google descortinou para mim uma revolução na forma de fazer a cobertura de meio ambiente.

Meu primeiro instinto foi exatamente localizar as reportagens sobre as queimadas em uma mapa interativo. Nos meses que seguiram, fui descobrindo, fascinado, outros instrumentos que permitiam visualizações ainda mais poderosas e que facilitavam a navegação do público pelos dados. Como bem observou a minha esposa, tornei-me amante do Google Earth.

O especial Monitor - Fogo nas Áreas Protegidas, lançado pelo site O Eco foi a experiência precursora do que, 4 anos depois, viria a ser o InfoAmazônia: uma plataforma digital que reúne jornalismo e dados ambientais em uma espécie de diálogo onde o fio condutor é a referência geográfica. Dados emprestavam contexto para as reportagens, mas o inverso também era verdadeiro: o jornalismo qualificava a informação vinda do satélite. Nossa frase de efeito na época foi “o que satélite capta do espaço, o repórter conta em terra”

Uma exposição em 2010 na British Library me mostrou com enorme clareza que mapas são bons instrumentos de informação há séculos. Mas a utilização deles, sempre bastante restrita. Basta visitar a suntuosa sala de mapas do Museu do Vaticano para entender como a confecção das cartas servia aos que detinham poder. O surgimento da geoweb, como tem sido classificado o crescente uso de mapas digitais, democratizou o conhecimento geográfico e abriu uma nova porta para o jornalismo: transmitir conteúdo sobre os mapas, criando distintas camadas de informação. O mapa se tornou um meio de publicação, onde a teia de longitude e latitude pode ser vista da mesma forma como as antigas marcas da lauda no papel.

A inspiração para o InfoAmazônia foi reforçada pela enorme quantidade de dados gratuitos; séries históricas sobre fogo e desmatamento, por exemplo, são encontradas em formatos abertos nos sites da NASA ou do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE). Nossa ideia, logo de início, era usar o dado de satélite como contexto e guia para reportagens que deveriam ser feitas em campo pelos jornalistas. Assim surgiu um nome para a prática, o geojornalismo - uma espécie de galho dentro da frondosa árvore do jornalismo de dados.

Tenho enfatizado que o termo geojornalismo apareceu mais por conta de um desejo de propagandear o que estamos fazendo do que como um conceito bem formado. No entanto, após anos amadurecendo a plataforma, nos demos conta de que existem muitos fundamentos que surgiram exatamente do desejo de transformar o jornalismo em uma camada relevante para entender um determinado território, neste caso a maior floresta tropical do planeta.

A arquitetura do InfoAmazônia

O projeto InfoAmazônia foi lançado em junho de 2012 através de uma parceria entre O Eco e Internews, uma organização americana dedicada a fomentar a mídia em países em desenvolvimento, com apoio do Centro Internacional de Jornalistas (ICFJ), que financia o meu trabalho através das Bolsas Knight.

Imagem 3. A equipe de desenvolvedores do InfoAmazonia reunida em 17 de junho poucas horas antes do lançamento no Rio de Janeiro (foto: Gustavo Faleiros)

A primeira decisão, e certamente a mais difícil, foi a escolha da ferramenta de mapas. Desde o planejamento da plataforma, em 2008, a escolha era utilizar as ferramentas do Google. Mas notamos que, por conta da grande quantidade de informação coletada, necessitávamos de algo diferente, e acabamos nos unindo em uma parceria com a empresa americana MapBox.

A decisão por usar a tecnologia de MapBox foi guiada pelo fato de que os mapas funcionam como imagens interativas, suportando uma enorme quantidade de dados. Ao contrário de outras ferramentas, as camadas são renderizadas antes de irem para nuvem e um recurso conhecido como UTF Grid permite a interação entre os usuários e a base de dados com uma rapidez incrível. Isso nos permite ter hoje mapas como o do desmatamento, com até 15 camadas diferentes com séries históricas representando dados dos últimos 20 anos.

Para montar o InfoAmazonia contamos com 8 pessoas. Do MapBox - cuja equipe liderada pelo programador Alex Barth enriqueceu o projeto com novas ideias - havia o designer do site, um designer de mapas e um programador para o sistema de publicação (CMS). Do nosso lado, no Brasil, tínhamos uma gestora de desenvolvimento (Juliana Mori, que coordenava a execução das etapas do projeto) e dois jornalistas organizando a base de dados das reportagens. Eu e James Fahn (da Internews) cuidamos da parte institucional e concepção editorial.

Uma das questões fundamentais foi criar uma base de dados de reportagens sobre os temas que seriam representados nos mapas. Usando uma planilha de Google Docs, onde havia uma coluna de coordenadas geográficas, começamos a acumular notícias em português, inglês e espanhol sobre desmatamento, queimadas, conservação, mineração e outras questões relevantes. No lançamento, a tabela possuía 180 matérias. Um ano depois, cerca de 800 já tinham sido agregadas .

Modelo para distribuir e replicar

É exatamente a acumulação de dados que nos faz mover em novas direções. Acreditamos que o aplicativo InfoAmazonia tem algumas características que o tornam único. Este é o único local na web onde se pode encontrar concentradas informações sobre Amazônia como um todo, não apenas do Brasil, mas dos 9 países que detêm a floresta tropical. Esta vantagem também se torna um desafio na gestão dos dados.

Nossa primeira ação para lidar com o desafio foi criar um tema de Wordpress exclusivo para a gestão dos mapas e notícias por jornalistas. Para isso, trabalhamos com dois estúdios de São Paulo, Cardume e Memelab. Em maio de 2013, esse tema do Wordpress - batizado de Mappress - se tornou livre para utilização e seu código pode ser encontrado no GitHub. Potencialmente, outros projetos com informações do Cerrado, da Caatinga ou da Mata Atlântica poderão surgir, testando a validade do olhar territorial na cobertura jornalística.

Recentemente, criamos uma seção dedicada à customização dos mapas pelo público e por instituições parceiras. É possível levar toda essa informação que batalhamos para agregar simplesmente embedando - ou seja incorporando - o código em seu próprio site. Os mapas podem ser desagregados por camadas ou filtrados por tipo de notícias. Nossa esperança é uma só: aumentar o alcance e o impacto dos dados sobre a Amazônia.

Gustavo Faleiros, InfoAmazônia