Manual de Jornalismo de Dados 1.0
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O que é o jornalismo de dados?

Eu poderia responder, simplesmente, que é um jornalismo feito com dados. Mas isso não ajuda muito.

Ambos, "dados" e "jornalismo", são termos problemáticos. Algumas pessoas pensam em "dados" como qualquer grupo de números, normalmente reunidos numa planilha. Há 20 anos, este era praticamente o único tipo de dado com o qual os jornalistas lidavam. Mas nós vivemos num mundo digital agora, um mundo em que quase tudo pode ser (e quase tudo é) descrito com números.

A sua carreira, 300 mil documentos confidenciais, todos dentro do seu círculo de amizades; tudo isso pode ser (e é) descrito com apenas dois números: zeros e uns. Fotos, vídeos e áudio são todos descritos com os mesmos dois números: zeros e uns. Assassinatos, doenças, votos, corrupção e mentiras: zeros e uns.

O que faz o jornalismo de dados diferente do restante do jornalismo? Talvez sejam as novas possibilidades que se abrem quando se combina o tradicional "faro jornalístico" e a habilidade de contar uma história envolvente com a escala e o alcance absolutos da informação digital agora disponível.

Estas possibilidades aperecem em qualquer estágio do processo, seja usando programas para automatizar o trabalho de combinar informação do governo local, polícia e outras fontes civis, como Adrian Holovaty fez no ChicagoCrime e depois no EveryBlock; seja usando um softtware para achar conexões entre centenas de milhares de documentos, como o The Telegraph fez com o MPs' expenses.

Imagem 1. Chamado para ajudar a investigar os gastos dos Membros do Parlamento (MPs) - (the Guardian)

Jornalismo de dados pode ajudar um jornalista a formular uma reportagem complexa através de infográficos envolventes. Por exemplo, as palestras espetaculares de Hans Rosling para visualizar a pobreza no mundo com o Gapminder atraíram milhões de visualizações em todo mundo. E o trabalho popular de David McCandless em destrinchar grandes números — como colocar gastos públicos dentro de contexto, ou a poluição gerada e evitada pelo vulcão islandês — mostra a importância de um design claro, como o do Information is Beautiful.

Ou ainda o jornalismo de dados pode ajudar a explicar como uma reportagem se relaciona com um indivíduo, como a BBC e o Financial Times costumam fazem com seus orçamentos interativos (em que se pode descobrir como o orçamento público afeta especificamente você, em vez de saber como afeta uma "pessoa comum"). Ele pode também revelar o processo de construção das notícias, como o Guardian fez de maneira tão bem-sucedida compartilhando dados, contextos e questões com o Datablog.

Os dados podem ser a fonte do jornalismo de dados, ou podem ser as ferramentas com as quais uma notícia é contada — ou ambos. Como qualquer fonte, devem ser tratados com ceticismo; e como qualquer ferramenta, temos de ser conscientes sobre como eles podem moldar e restringir as reportagens que nós criamos com eles.

Paul Bradshaw, Birmingham City University