Manual de Jornalismo de Dados 1.0
Loading

Por que jornalistas devem usar dados?

O jornalismo está sitiado. No passado, nós, como uma indústria, contávamos com o fato de sermos os únicos a operar a tecnologia para multiplicar e distribuir o que havia acontecido de um dia para o outro. A imprensa servia como um portão: se alguém quisesse impactar as pessoas de uma cidade ou região na manhã seguinte, deveria procurar os jornais. Isso acabou.

Hoje as notícias estão fluindo na medida em que acontecem, a partir de múltiplas fontes, testemunhas oculares, blogs, e o que aconteceu é filtrado por uma vasta rede de conexões sociais, sendo classificado, comentado e, muito frequentemente, ignorado.

Esta é a razão pela qual o jornalismo de dados é tão importante. Juntar informações, filtrar e visualizar o que está acontecendo além do que os olhos podem ver tem um valor crescente. O suco de laranja que você bebe de manhã, o café que você prepara: na economia global de hoje existem conexões invisíveis entre estes produtos, as pessoas e você. A linguagem desta rede são os dados: pequenos pontos de informação que muitas vezes não são relevantes em uma primeira instância, mas que são extraordinariamente importantes quando vistos do ângulo certo.

Agora mesmo, alguns jornalistas pioneiros já demonstram como os dados podem ser usados ​​para criar uma percepção mais profunda sobre o que está acontecendo ao nosso redor e como isto pode nos afetar.

A análise dos dados pode revelar "o formato de uma história" (Sarah Cohen), ou nos fornecer uma "nova câmera" (David McCandless). Usando os dados, o principal foco do trabalho de jornalistas deixa de ser a corrida pelo furo e passa a ser dizer o que um certo fato pode realmente significar. O leque de temas é abrangente: a próxima crise financeira em formação, a economia por trás dos produtos que usamos, o uso indevido de recursos ou os tropeços políticos. Tudo isso pode ser apresentado em uma visualização de dados convincente que deixe pouco espaço para discussão.

Exatamente por isso jornalistas deveriam ver nos dados uma oportunidade. Eles podem, por exemplo, revelar como alguma ameaça abstrata, como o desemprego, afeta as pessoas com base em sua idade, sexo ou educação. Usar dados transforma algo abstrato em algo que todos podem entender e se relacionar.

Eles podem criar calculadoras personalizadas para ajudar as pessoas a tomarem decisões, seja comprar um carro, uma casa, decidir um rumo educacional ou profissional ou ainda verificar os custos de se manter sem dívidas.

Eles podem analisar a dinâmica de uma situação complexa, como protestos ou debates políticos, mostrar falácias e ajudar todos a verem as possíveis soluções para problemas complexos.

Ter conhecimento sobre busca, limpeza e visualização de dados é transformador também para o exercício da reportagem. Jornalistas que dominam estas habilidades vão perceber que construir artigos a partir de fatos e ideias é um alívio. Menos adivinhação, menos busca por citações; em vez disso, um jornalista pode construir uma posição forte apoiada por dados, o que pode afetar consideravelmente o papel do jornalismo.

Além disso, ingressar no jornalismo de dados oferece perspectivas de futuro. Hoje, quando redações cortam suas equipes, a maioria dos jornalistas espera se transferir para um emprego em relações públicas ou assessoria de imprensa. Jornalistas de dados e cientistas de dados, contudo, já são um grupo procurado de funcionários, não só nos meios de comunicação. As empresas e instituições ao redor do mundo estão buscando "intérpretes" e profissionais que saibam entrar fundo nos dados e transformá-los em algo tangível.

Há uma promessa de futuro nos dados e isso é o que o excita as redações, fazendo-as procurar por um novo tipo de repórter. Para freelancers, a proficiência com dados fornece um caminho para novas ofertas e remuneração estável também. Veja deste modo: em vez de contratar jornalistas para preencher rapidamente as páginas e os sites com conteúdo de baixo valor, a utilização dos dados poderia criar demanda para pacotes interativos, nos quais passar uma semana resolvendo uma questão é a única maneira de fazê-los. Esta é uma mudança bem-vinda em muitas partes da mídia.

Há uma barreira impedindo os jornalistas de usarem este potencial: treinamento para aprender como trabalhar com dados passo-a-passo, da primeira questão até um furo obtido pelo trabalho com os dados.

Trabalhar com dados é como pisar em um vasto e desconhecido território. À primeira vista, os dados brutos são intrigantes aos olhos e à mente. Esses dados são complicados. É bastante difícil moldá-los corretamente para a visualização. Isto requer jornalistas experientes, que têm energia para olhar aqueles dados brutos, por vezes confusos, por vezes chatos, e enxergar as histórias escondidas lá dentro.

Mirko Lorenz, Deutsche Welle

A Pesquisa

O Centro Europeu de Jornalismo realizou uma pesquisa para saber mais sobre as necessidades de formação dos jornalistas. Descobrimos que há uma grande vontade de sair da zona de conforto do jornalismo tradicional e investir tempo em dominar novas habilidades. Os resultados da pesquisa nos mostraram que os jornalistas veem a oportunidade, mas precisam de um pouco de apoio para acabar com os problemas iniciais que os impedem de trabalhar com dados. Existe uma confiança de que se o jornalismo de dados for adotado mais universalmente, os fluxos de trabalho, ferramentas e os resultados vão melhorar muito rapidamente. Pioneiros como The Guardian, The New York Times, Texas Tribune, e Die Zeit continuam a elevar o nível com suas histórias baseadas em dados.

Será que o jornalismo de dados permanecerá restrito a um pequeno grupo de pioneiros, ou será que cada organização de notícias em breve vai ter sua própria equipe dedicada ao jornalismo de dados? Esperamos que este manual ajude mais jornalistas e redações a tirar proveito deste campo emergente.

Imagem 2. Pesquisa do Centro Europeu de Jornalismo sobre necessidades de treinamento.