Manual de Jornalismo de Dados 1.0
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O jornalismo guiado por dados numa perspectiva brasileira

A partir do final dos anos 2000, as práticas de Jornalismo Guiado por Dados (JGD) não apenas estavam em vias de se estabelecer nas redações da América do Norte e Europa, como também haviam se tornado a principal estratégia de grande parte da imprensa para a recuperação da audiência, que vem caindo há décadas. Pode-se dizer que, hoje, o jornalismo guiado por dados “está na moda”. Além da popularização das ferramentas e do apelo comercial de visualizações e outros produtos relacionados ao JGD, foi importante para isso a adoção de políticas de acesso à informação e transparência por governos de todo o mundo. Conhecidos como políticas de “dados abertos” (open data) ou “transparência pública” (open government), estes mecanismos inundaram a Internet com bases de dados antes muito difíceis de se obter. Os jornalistas, portanto, têm hoje o material e as ferramentas para o o JGD ao alcance das mãos.

Serviços online, como Google Drive, Infogr.am, DocumentCloud e CartoDB, apenas para citar alguns, permitem construir, organizar e analisar bancos de dados, bastando um computador e habilidade com a língua inglesa para usá-los. Em maio de 2012, a Presidência da República sancionou a Lei nº 12.527, conhecida como Lei de Acesso à Informação, que obriga todos os órgãos públicos brasileiros a divulgar dados administrativos e a atender a solicitações de informação qualquer cidadão. Estes dois fatores reavivaram o interesse da imprensa brasileira pela aplicação de técnicas computacionais na produção de notícias.

São os próprios repórteres, individualmente, os principais disseminadores dos conceitos de JGD no cenário mundial. Você pode encontrar aqui uma lista de quase cem referências com links para esses trabalhos. No Brasil, existem cada vez mais jornalistas se preparando para atuar nesta especialidade, além dos veteranos da Reportagem Assistida por Computador (RAC) dos anos 1990. Um dos principais indícios deste interesse foi a criação de uma equipe dedicada apenas ao jornalismo guiado por dados na redação de O Estado de São Paulo, pioneira no Brasil, no ano de 2012. Em maio daquele ano, a equipe do Estadão Dados lançou o Basômetro, um dos primeiros aplicativos jornalísticos brasileiros. Em agosto do mesmo ano, a Folha de S. Paulo passou a hospedar o blog FolhaSPDados, cujo objetivo é criar visualizações gráficas e mapas relacionados às reportagens publicadas no veículo impresso e no site da empresa. A mesma Folha passou a hospedar o blog Afinal de Contas, dedicado a analisar o noticiário a partir de análises de dados. Outros veículos, como a Gazeta do Povo, do Paraná, têm usado a experiência da redação com jornalismo investigativo na produção de grandes reportagens baseadas em dados. Já o gaúcho Zero Hora, por exemplo, vem se dedicando ao tema do jornalismo guiado por dados e transparência pública através de reportagens e do blog Livre Acesso, inaugurado em 2012 para acompanhar a aplicação da Lei de Acesso à Informação no país.

No campo do jornalismo independente, o principal exemplo é o InfoAmazônia, criado em 2012 pelo Knight Fellow Gustavo Faleiros, em parceria com o webjornal O Eco e a Internews. Em 2013, O Eco criou o Ecolab, um Laboratório de Inovação em Jornalismo Ambiental. A Agência Pública é outra redação independente a aplicar técnicas de JGD, embora o faça esparsamente. Apesar disso, foi responsável por uma das principais contribuições ao JGD no Brasil, por meio de uma parceria com o Wikileaks, para oferecer a biblioteca de documentos diplomáticos PlusD, entre outras bases de dados.

Estes exemplos sugerem estarmos vivenciando os primeiros passos de um movimento de institucionalização das práticas de jornalismo guiado por dados nas redações brasileiras. As bases do sucesso do JGD no país, entretanto, foram lançadas nos anos 1990.

Breve histórico do Jornalismo Guiado Por Dados no Brasil

Ainda durante o governo de Fernando Collor de Mello como presidente do Brasil, o jornalista Mário Rosa, então empregado no Jornal do Brasil, usou o Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi) para verificar o superfaturamento na compra de leite em pó pela Legião Brasileira de Assistência, então presidida pela primeira-dama, Rosane Collor. Lúcio Vaz relata o caso no livro “A ética da malandragem”:

Assinada pelo jornalista Mário Rosa, a matéria estava completa, com dados jamais vistos, como números de ordens bancárias (Obs.) e de empenhos (reservas feitas no Orçamento da União). Mário havia descoberto o Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), uma expressão que se tornaria muito conhecida de jornalistas e políticos nos anos seguintes. O acesso a esse sistema, que registra os gastos do governo federal, possibilita fazer uma completa radiografia de todos os pagamentos feitos a empreiteiras, fornecedores, Estados e municípios. Uma mina de diamante para os repórteres. O jornalismo ganhava uma nova e importante fonte de informação, mais técnica, quase científica. Estavam superados os métodos mais arcaicos de apuração, que envolviam, eventualmente, o enfrentamento com jagunços.

Na época, o acesso a este tipo de base de dados governamental era vedado a cidadãos e jornalistas. O próprio autor da reportagem, Mário Rosa, só pôde realizar pesquisas no Siafi porque o então senador Eduardo Suplicy (PT-SP) lhe emprestou a senha a que tinha direito no desempenho de suas atividades parlamentares. A partir desta e de outras reportagens, o Governo Federal decidiu permitir oficialmente o acesso de jornalistas ao Siafi, tornando-o uma das primeiras bases de dados públicas a serem franqueadas a repórteres no Brasil.

Ascânio Seleme, hoje diretor de redação de O Globo, foi outro repórter que, ainda nos anos 1990, usou a senha de um parlamentar para realizar pesquisas no Siafi, em colaboração com o analista econômico Gil Castelo Branco, diretor da Organização Não-Governamental Contas Abertas. Estes dois casos são, provavelmente, os primeiros exemplos de JGD na história do jornalismo brasileiro.

Ao longo dos anos 1990, repórteres como Fernando Rodrigues e José Roberto de Toledo, da Folha de S. Paulo, começam a usar técnicas de RAC. A partir de cursos ministrados na redação por tutores do National Institute for Computer-Assisted Reporting dos Estados Unidos, uma subdivisão da associação Investigative Reporters and Editors (IRE/NICAR), estas técnicas foram disseminadas na redação e depois passaram a integrar o currículo do programa de trainees da Folha. A partir de 1998, Fernando Rodrigues começou a construir o banco de dados Políticos do Brasil, lançado na Web e em livro. Em 2002, José Roberto de Toledo se torna um dos sócios-fundadores e vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), entidade fundamental na disseminação dos conceitos e técnicas da RAC no Brasil, tendo treinado mais de quatro mil jornalistas.

A estruturação da Abraji se deu a partir de um seminário promovido pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas em dezembro de 2002, cujos principais palestrantes foram Brant Houston, autor de um manual de RAC e então diretor do IRE, e Pedro Armendares, da organização mexicana Periodistas de Investigación, que era um dos tutores dos cursos de RAC organizados pela Folha de S. Paulo.

Embora seja uma associação voltada ao jornalismo investigativo em geral, a Abraji atuou na última década principalmente na divulgação da RAC e na defesa do acesso à informação, como uma das entidades integrantes do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, criado em 2003, e através de cursos e palestras – dois fatores fundamentais para a emergência do jornalismo guiado por dados ao longo da década de 2000. Duas outras entidades tiveram um papel importante no estabelecimento destas práticas nas redações brasileiras: as organizações não-governamentais Transparência Brasil e Contas Abertas.

A primeira foi criada em 2000 com o objetivo de construir e manter bases de dados sobre financiamento eleitoral, histórico de vida pública e processos sofridos por parlamentares em nível municipal, estadual e federal, notícias sobre corrupção publicadas nos principais jornais brasileiros e sobre o desempenho dos juízes membros do Supremo Tribunal Federal. A segunda entidade, criada em 2005, acompanha o processo de execução orçamentária e financeira da União, através de monitoramento do Siafi, e promove o treinamento de jornalistas para fiscalizar gastos públicos. As bases de dados mantidas pela Transparência Brasil e Contas Abertas permitiram a repórteres realizar reportagens investigativas ao longo da década, quando o acesso às informações do Estado dependia de gestão caso-a-caso junto a órgãos do governo e às redações não investiam neste tipo de recurso.

Um indício da crescente importância das bases de dados para as redações ao longo da década de 2000 está na lista de vencedores do Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa, vencido em 2002 e 2006 por Fernando Rodrigues, pelo arquivo de declarações de bens de políticos brasileiros Controle Público e pelo livro “Políticos do Brasil”, respectivamente; pela Transparência Brasil, em 2006, e pela Contas Abertas, em 2007. Em 2010, a reportagem vencedora do Prêmio Esso, o mais importante do jornalismo brasileiro, foi a série “Díários Secretos”, publicada pela Gazeta do Povo, do Paraná. Para elucidar os movimentos de contratação de funcionários na Assembleia Legislativa do Paraná, os repórteres construíram um banco de dados com todas as nomeações realizadas pela casa entre 2006 e 2010, a partir de diários oficiais impressos. Cruzando os dados no software para criação de planilhas Microsoft Excel, puderam descobrir casos de contratação de funcionários-fantasmas e nepotismo.

Dados são a tábua de salvação da imprensa?

Esse breve histórico sugere que o jornalismo guiado por dados não foi assimilado pelas redações brasileiras através da divulgação promovida por associações profissionais internacionais, imprensa e jornalistas, que tem se intensificado desde 2010, mas vem sendo constituído como prática na cultura jornalística brasileira em paralelo com o processo de informatização. Todavia, pode-se inferir que o interesse crescente de empresas e profissionais do mundo inteiro pelo jornalismo guiado por dados alimenta e incentiva o interesse pelo tema nas redações do Brasil. Números da ferramenta de buscas Google mostram que, a partir de 2010, há um volume crescente de procura por páginas relacionadas ao jornalismo guiado por dados, como pode ser verificado na figura abaixo.

Imagem 11. Volume de buscas por “data journalism” entre janeiro de 2010 e agosto de 2013 (Google Trends, 18 set. 2013)

O primeiro ponto de inflexão na curva de interesse pelo termo “data journalism” (jornalismo de dados) no Google coincide com a criação de uma seção dedicada ao tema, o DataBlog, pelo jornal britânico The Guardian, no final de 2010, e atinge seus dois maiores picos em maio de 2012, quando o jornal americano Seattle Times ganha o prêmio de melhor reportagem em jornalismo guiado por dados da associação Global Editors Network, e em abril de 2013, quando o The Guardian publica no repositório de vídeos YouTube um documentário sobre a história do jornalismo guiado por dados na redação do veículo britânico.

O interesse da imprensa pelo jornalismo guiado por dados, porém, já era evidente dois anos. No dia 11 de janeiro de 2009, a New York Magazine, editada pelo grupo controlador do New York Times, trazia na capa a manchete “O novo jornalismo” e uma foto de duas páginas de cinco membros dos setores de Tecnologias para Redação Interativa, gráficos e multimídia da empresa, acompanhada do subtítulo “O que estes cybergeeks renegados estão fazendo no New York Times? Talvez o salvando”. A matéria conta a história da formação do grupo de Tecnologias para Redação Interativa dentro da organização, cujos membros, liderados por Aron Pilhofer, são classificados na reportagem como “nerds”, “desenvolvedores/repórteres ou repórteres/desenvolvedores” e “cybergeeks”.

O New York Times é uma das maiores e mais respeitadas empresas de jornalismo do mundo e, para além do sucesso mercadológico, pode ser considerada a própria encarnação da cultura e da mitologia da profissão. O interesse das redações brasileiras e mundiais pelas práticas de jornalismo guiado por dados não está ligado apenas a seus benefícios para as rotinas produtivas e o atendimento do interesse público, mas também à esperança de salvar uma indústria em decadência justamente por efeito das tecnologias digitais.

Marcelo Träsel, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul